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Sobre os atendimentos — ou — o que falar quer dizer?

A ideia de um Eu, de uma identidade própria, consiste na unificação de tudo o que se pensa como uma razão única, a minha, mas que desconhece sua origem externa. 

O pensamento é algo que nos acontece, não algo que fazemos. Notamos tal condição, por exemplo, quando o pensamento falha: quando esquecemos um nome que sabemos conhecer, ou quando surgem imagens ou pensamentos que não gostaríamos de ter. Ou seja, o pensamento está muito mais para algo que acontece em mim do que para algo que é meu. 

 

O que normalmente fazemos depois disso é nos apropriar daquilo que nos ocorreu e transformar em "eu pensei". 

A ideia dos atendimentos é suspender esse movimento.

Trata-se de abrir mão de falar algo específico e de não censurar elementos que nos ocorrem. Dá-se espaço, assim, para aquilo que ocorre antes da censura, da racionalização e da tentativa de enquadramento em uma ordem pré-definida. 

 

Naturalmente, quando falamos em terapia, tais determinações acontecem, quer queiramos ou não. Mesmo quando planejamos o que queremos dizer, lapsos ocorrem, palavras são trocadas, novos sentidos emergem ou se desfazem: acabamos dizendo mais do que aquilo que pretendíamos.

 

Podemos nos esconder de nós mesmos tanto por meio de racionalizações e discursos preparados quanto por associações aparentemente poéticas que saltam de palavra em palavra. 

Isso porque tendemos a rejeitar certos elementos que nos dizem respeito. Preferimos, muitas vezes, não saber. Acontece que aquilo que é silenciado retorna e, muitas vezes, sofremos quando não nos escutamos.

 

Isso não significa que falar “tudo que lhe passa pela cabeça” seja fácil, muito pelo contrário. Entretanto, trata-se de um exercício interessante de se tentar realizar durante os atendimentos. Claro, nem sempre será possível fazê-lo, mas será tanto mais fácil quanto menos agarrados estivermos àquilo que tencionamos comunicar.

© 2025 por Luiz Bottega

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